Todos já tiveram um dia em que acordaram irritados com a
vida. O meu foi hoje, dia vinte e oito de abril, levantei onze da manhã,
irritada comigo. A primeira irritação é consigo próprio, acreditando ser inútil,
não conseguindo fazer metade das coisas que estavam em planejamento e
extremamente importantes. Acordei pensando nos trabalhos que preciso entregar na
faculdade, acordei pensando na entrevista que fui sexta e quando eles
retornarão com a resposta, acordei pensando na festa que não posso faltar hoje à
noite, acordei pensando que tinha que me arrumar logo, acordei com dor de
cabeça. Sou uma e tenho atividades para dez.
A segunda irritação é com a primeira pessoa que aparece na
frente. Por azar, foi minha irmã. Ela veio carinhosamente me chamar para comer,
e eu logo a expulsei da minha visão, fui grossa. Ela não tem culpa das mil
coisas que eu tenho pra fazer em um final de semana. Ela não tem culpa, eu que
não estou dormindo direito a duas semanas e estou cansada. Ela não tem culpa.
A terceira irritação é com a primeira pessoa que não entende
tamanho cansaço. Essa foi minha mãe. Antes do “bom dia”, já avisei: estou de
mal humor, estou cansada, estou com dor de cabeça e com sono. Naquele momento ficou
claro, eu estava chata e insuportável. Com dezoito anos, aprendi a principal
lição da vida, não importa o quão irritada você está, sempre dá pra ficar mais.
Foi aí que testei o limite da minha paciência. Minha mãe questionou meu cansaço
e minha irritação, com o argumento que eu sou muito jovem para estar assim,
deveria ter disposição, e tudo que eu fiz e tenho para fazer não é nada. Tá,
tudo bem. Respira. Conta até mil. Quando temos um problema, não importa se ele
é simples ou complexo, é nosso, e sempre vai ser mais complicado do que alguém
possa entender. Não adianta falarem “é besteira isso” ou “esse é seu
probleminha? Simples!” nada irrita mais que isso. Pois bem, é minha mãe, e ela própria
me ensinou a respeita-la. Não falarei nada... Mas ela insiste, continua
cutucando. Ok, mãe, você pediu. Desabafo, brigando, tudo que a vida tem me
pressionado neste ultimo mês, colocando a principal parcela de culpa nela. Falei
incansavelmente durante trinta minutos, com raiva, chateada e a ponto de
explodir. Ela só ouviu. Quando me calei, começou a vez dela. Não parou de falar
por uma hora. Argumentos que eu não concordo, mas estava cansada para puxar mais
duas horas de conversa.
Me retiro, cansei, não quero mais. Voltarei para minha cama
e começarei meu dia novamente. Não é possível, levantei com o pé esquerdo.
Quando acho que não dá para me irritar mais, o celular toca.
Mais uma decepção, mais um compromisso furado em cima da hora. Tá, faz parte. Sou
compreensiva. Entendo o que você está passando. Tá. Entendo que hoje não será
possível para você, mas logo lhe aviso, estou de mal humor e amanhã não será
possível para mim. Vou descansar o dia inteiro. Não quero ser incomoda. Não
quero te ver amanhã. Não, não estou brava. Não, não estou chateada. Pelo menos
não com você. Não, não estou brava com minha mãe. Entenda, eu to cansada e
brava COMIGO! Quero ficar sozinha, quero ficar comigo, só. Quero realinhar todo
meu planejamento. Quero repensar em tudo que eu fiz e quero fazer. Quero voltar
a ser minha amiga. Apenas quero um dia sozinha.
Acho que todo mundo entendeu, preciso de um tempo sem
ninguém.




