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terça-feira, 10 de abril de 2012

É tentador


Vem. Eu te pago. Será uma experiência única. Vem. É tentador! Nove meses... Vem?
É, analisando, é tentador, é uma experiência única... Meu sonho era fazer intercambio, mas por total dúvida de destino e saudade precoce, a desistência foi fácil e rápida. Mas hoje é diferente. Cresci um pouco já, sei me virar sozinha, sei cuidar de alguém, sei o caminho de volta também (nunca se sabe o que pode acontecer).
Nove meses, um cruzeiro, três mil dólares por mês, experiências únicas, diversos conhecimentos, visão de mundo abrangente, América do Sul, América Central, Europa. Ah a Europa, dizem que é linda... Tentador, devo reconhecer.
Quero, está decidido: irei!
Mãe, você é a primeira, está mais perto e eu preciso da sua aprovação e opinião. Posso? É bom, é legal, é bonito. Primeiro banho de realidade: E a família? E a faculdade? E sua gastrite? E sua vida planejada? Ok, é verdade, não ficaria longe mais de uma semana, não teria ninguém para me acalmar quando a gastrite me ataca, não daria um pause na vida e voltaria a ela daqui um ano. Mas continua tentador.
Pai, você é o segundo, me liga sempre seis e meia da tarde, e eu preciso da sua aprovação e opinião. Posso? É bom, é legal, é bonito. Reação inesperada: VAI! É uma oportunidade única, abraça! Mas pai, e a família, faculdade, gastrite e vida planejada? VAI! É um ano só, você é nova, tem muito pela frente. Você vai crescer muito com isso. Tem certeza pai? Tenho, isso é um presente, vai! Jura pai? Juro, mas a escolha é sua, se você quiser ir, sou o primeiro a te apoiar, se quiser ficar, sou o primeiro a... não, sou o segundo, pois com certeza sua mãe será a primeira. É pai, vou pensar direito, domingo conversamos então.
Amor, você é o terceiro, te vejo as sete e vinte quase todo dia, e preciso da sua aprovação e opinião. Mas entre o telefonema do meu pai e minha conversa com você, já encho meus olhos de lagrima... Nove meses longe? Minha vovó viverá mais um ano? Ninguém provará amor maior para você? Minha irmã crescerá muito em um ano? Você me esquecerá em um ano? Perguntas suficientes para me fazerem desistir de qualquer coisa. Quase choro. Penso um pouco, e preciso da sua aprovação e opinião. É bom, é legal, é bonito. Posso? O que você acha? Primeira reação: silêncio e cara fechada. Ok, era de se esperar. O que você acha? Não quero dar minha opinião. Me fala, eu quero saber. Não quero opinar na sua vida. Não é minha vida, é nossa. O que você acha? Acha que te quero longe? Ok, sou estúpida, isso é coisa que se pergunte para alguém que quer passar a vida ao seu lado? Desisto, fico quieta. Se você quiser ir, vai. Não quero mais. Quero ficar! Mundo, eu não quero você! Eu quero minha mãe. Nunca desejei tanto estar em casa, deitada no colo da minha mãe. Eu quero a vida do jeito que está. Eu quero estar todos os dias ao lado de todos que eu tanto amo. Eu quero estar todo dia com você. Eu fico, eu amo você. Eu fico. Esquece tudo que eu disse. Eu fico. Eu continuo aqui, vê? Eu não estou indo. Vê? Eu to aqui!
Que pensamento estúpido, ir embora...
Ir embora... tentador. Não, não é! É sim, além de agregar experiência o valor é ótimo! Mas vale abrir mão de um ano da vida? Vale isso? Vale a saudade? Vale o amor deixado? Vale o planejamento quebrado? Vale as noites de gastrite atacada sem ninguém ao lado? Vale? Vale? É, não vale.
Que pensamento estúpido, ir embora...

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