Vem. Eu te pago. Será uma experiência única. Vem. É tentador!
Nove meses... Vem?
É, analisando, é tentador, é uma experiência única... Meu
sonho era fazer intercambio, mas por total dúvida de destino e saudade precoce,
a desistência foi fácil e rápida. Mas hoje é diferente. Cresci um pouco já, sei
me virar sozinha, sei cuidar de alguém, sei o caminho de volta também (nunca se
sabe o que pode acontecer).
Nove meses, um cruzeiro, três mil dólares por mês, experiências
únicas, diversos conhecimentos, visão de mundo abrangente, América do Sul,
América Central, Europa. Ah a Europa, dizem que é linda... Tentador, devo
reconhecer.
Quero, está decidido: irei!
Mãe, você é a primeira, está mais perto e eu preciso da sua
aprovação e opinião. Posso? É bom, é legal, é bonito. Primeiro banho de
realidade: E a família? E a faculdade? E sua gastrite? E sua vida planejada?
Ok, é verdade, não ficaria longe mais de uma semana, não teria ninguém para me
acalmar quando a gastrite me ataca, não daria um pause na vida e voltaria a ela
daqui um ano. Mas continua tentador.
Pai, você é o segundo, me liga sempre seis e meia da tarde,
e eu preciso da sua aprovação e opinião. Posso? É bom, é legal, é bonito.
Reação inesperada: VAI! É uma oportunidade única, abraça! Mas pai, e a família,
faculdade, gastrite e vida planejada? VAI! É um ano só, você é nova, tem muito
pela frente. Você vai crescer muito com isso. Tem certeza pai? Tenho, isso é um
presente, vai! Jura pai? Juro, mas a escolha é sua, se você quiser ir, sou o
primeiro a te apoiar, se quiser ficar, sou o primeiro a... não, sou o segundo,
pois com certeza sua mãe será a primeira. É pai, vou pensar direito, domingo
conversamos então.
Amor, você é o terceiro, te vejo as sete e vinte quase todo
dia, e preciso da sua aprovação e opinião. Mas entre o telefonema do meu pai e
minha conversa com você, já encho meus olhos de lagrima... Nove meses longe?
Minha vovó viverá mais um ano? Ninguém provará amor maior para você? Minha irmã
crescerá muito em um ano? Você me esquecerá em um ano? Perguntas suficientes
para me fazerem desistir de qualquer coisa. Quase choro. Penso um pouco, e
preciso da sua aprovação e opinião. É bom, é legal, é bonito. Posso? O que você
acha? Primeira reação: silêncio e cara fechada. Ok, era de se esperar. O que
você acha? Não quero dar minha opinião. Me fala, eu quero saber. Não quero
opinar na sua vida. Não é minha vida, é nossa. O que você acha? Acha que te
quero longe? Ok, sou estúpida, isso é coisa que se pergunte para alguém que
quer passar a vida ao seu lado? Desisto, fico quieta. Se você quiser ir, vai.
Não quero mais. Quero ficar! Mundo, eu não quero você! Eu quero minha mãe. Nunca
desejei tanto estar em casa, deitada no colo da minha mãe. Eu quero a vida do
jeito que está. Eu quero estar todos os dias ao lado de todos que eu tanto amo.
Eu quero estar todo dia com você. Eu fico, eu amo você. Eu fico. Esquece tudo que
eu disse. Eu fico. Eu continuo aqui, vê? Eu não estou indo. Vê? Eu to aqui!
Que pensamento estúpido, ir embora...
Ir embora... tentador. Não, não é! É sim, além de agregar experiência
o valor é ótimo! Mas vale abrir mão de um ano da vida? Vale isso? Vale a
saudade? Vale o amor deixado? Vale o planejamento quebrado? Vale as noites de
gastrite atacada sem ninguém ao lado? Vale? Vale? É, não vale.
Que pensamento estúpido, ir embora...

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